“Não quero que você cuide mais de ninguém da minha família.”
A frase veio cortante, vinda de uma das netas. Eu estava ali, cumprindo meu papel: havia acabado de verificar o óbito da avó paterna, uma paciente com doença cardíaca grave que tinha acabado de partir, um processo que eu vinha cuidando há pouco tempo. Eu estava no processo de acolher a família, de organizar o caos do luto, quando as palavras me atingiram.
Não era a primeira vez que eu vivia o luto de perto com aquela família. Tempos atrás, cuidei também da avó materna, que faleceu por uma doença neurológica.
Ouvir aquilo foi duro. Ficou guardado em um lugar silencioso da minha memória. Minha resposta, na hora, foi tão honesta quanto a dor dela: “Eu também não espero que precisem.”
Hoje eu entendo. Eu não sou a profissional que as pessoas planejam contratar. Ninguém cresce sonhando em precisar de uma geriatra paliativista. Minha presença é o sinal de que que o sofrimento se tornou um vizinho próximo. Eu entro justamente onde ninguém quer estar: no epicentro da terminalidade.
As pessoas não rejeitam a mim, elas rejeitam a finitude que minha especialidade representa.
Mas a verdade é que muitas avós ainda vão precisar de mim. E sigo com a mesma convicção: se o meu trabalho, o meu olhar e a minha técnica forem capazes de evitar 1% do sofrimento de uma família que atravessa esse deserto, cada palavra dura terá valido a pena.

Deixe um comentário