Quando me sentei diante de um senhor idoso que me disse ter sido “desenganado” pela medicina — com um câncer avançado — algo em mim ficou suspenso.
Ele me perguntou sobre tempo de vida. Queria mais tempo — e essa vontade, ao contrário do que eu poderia imaginar, não vinha de nenhuma incompletude.
Não havia viagens não feitas. Não havia amor não doado. Não havia nada extraordinário esperando por ele no horizonte.
Ele queria viver mais para continuar vivendo exatamente como vivia. Porque é profundamente amado. Porque cada dia simples, do jeito que é, já é suficiente — já é um presente.
E eu fiquei em silêncio por um momento.
Quantas vezes adiamos a leveza de existir? Quantas vezes vivemos à espera de uma versão futura de nós mesmos — mais realizada, mais segura, mais pronta — sem perceber que o presente já carrega em si tudo o que precisamos reconhecer?
Ele não me ensinou medicina ontem.
Ele me ensinou o quanto é precioso chegar a uma idade avançada — depois de uma vida vivida — e ainda assim sentir que nada ficou para trás. Que não há nada a mais para conquistar, provar ou alcançar. Que viver em plenitude não é viver intensamente, mas viver inteiramente — presente em cada dia, sem deixar escapar o que já está ali.
Ele me ensinou sobre a beleza rara de quem chegou longe e não carrega falta.
Rubem Alves escreveu que a gente não deveria perguntar qual o sentido da vida, mas sim perceber os momentos em que a vida faz sentido. Aquele senhor não precisava de nenhuma resposta. Ele já vivia dentro da pergunta resolvida.
Há um poema chamado Instantes — de autor desconhecido, embora muitos o atribuam a Borges — que imagina o que faríamos se pudéssemos viver novamente. Aproveitaríamos mais os momentos simples. Nos permitiríamos ser mais. Olharíamos menos para o que ainda não tínhamos. Mas aquele senhor não precisava reescrever nada. Ele já havia vivido o poema — não como arrependimento, mas como escolha. Cada dia, cada amor, cada manhã ordinária tratada como se fosse exatamente o que é: tudo.
Quando terminamos a consulta, fiquei com algo que não cabe em nenhum prontuário.
E fizemos um combinado, ele e eu: farei tudo o que estiver ao meu alcance para que ele tenha tempo de vida — e que esse tempo seja vivido com qualidade, com presença, com dignidade. Não porque a medicina pode tudo. Mas porque ele merece cada dia que ainda vier.
Talvez a verdadeira cura não seja consertar o que falta, mas aprender a querer ser exatamente o que somos — aqui, agora, neste dia que ainda não se repetirá.

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